quarta-feira, 21 de março de 2012

Conversa com a dona Língua


— Preciso escrever para ti uma declaração de amor.
— Não há coisa mais fácil… Diz que sou bela.
— Isto todos já disseram; já não tem piada…
— Diz então que sou flor inculta e que venho do Lácio.
— O Olavo já disse.
— Esplendor e sepultura, lira singela, desconhecida e obscura…
— Ele mesmo, idem, ibidem.
— O que dizer? Diz que não sou mais do que as outras, mas que sou tua...
— Isto o Vasco já disse.
— Que graça… Diz o que faço: formo frases instáveis e…
— O Gastão disse isto.
Cruz! Tudo já foi dito?
— Acho que sim...
— Então tudo está por dizer no que já foi dito…
— Isto já disse o António.
— O Ramos Rosa?
— Em pessoa.
— Já agora… e o Fernando, o que disse?
— Escreveu que tu és pátria.
— E tu?
— Eu não tenho pátria; tenho mátria e quero frátria.
— Então diz isto!
— Não posso; o Caetano já disse…
— Adoro nomes… Então diz assim: “Amo-te”.
— Os portuguesem dizem assim.
— E que tal: “Te amo”?
— Os brasileiros dizem assim.
— Diz então que nasces com as minhas palavras dentro da tua barriga, e que, quando todas as minhas palavras acabam, tu morres, e…
— Isto quem disse…
— … e que é por causa disso que os mortos não falam…
— Isto é bonito, mas, como eu ia dizendo, isto quem disse foi o povo Dogon, lá da África. É uma crença…
— Meu caro Juva, não sei bem o que vais dizer na tua declaração de amor a mim… Não podes dizer que sou obscura, que sou flor, tuba de alto clangor e lira singela… Também não podes dizer que sem mim não serias o que és, porque o que és é mais do que aquilo que falas e escreves…
— Pois…
— Eu sei que queres dizer que me entendes inteira, me dominas e de mim fazes com que os outros te percebam e te admirem. Sei que queres dizer que sou a vertiginosa lista de todas as palavras, todas as combinações de palavras e todos os sons das bocas de meio mundo. Não sou. Sou mais.
— Muito mais… devagar. Estou a tomar notas...
— Talvez queiras acreditar que tenho em mim palavras que nenhuma outra língua tem e que sou a saída para a tua ânsia de querer expressar, querer entender e querer não esquecer.
— Sim, sim…
— Talvez prefiras acreditar que sou e surjo muito mais e melhor da forma como me escrevem, e talvez depois percebas que, na verdade, sou muito mais, e melhor, do modo como me falam, embora no fundo intuas que eu esteja muito mais próxima de mim mesma, e de ti, quando sou da maneira como me pensam… Anotaste?
— Sim. Disseste tudo. Como sempre… Obrigado.
— Conta comigo, sempre que precisares…
— Conto, sim. Quando eu conto, é sempre contigo.

(Texto publicado no JL - Jornal de Letras, n. 1082, 21 mar. a 3 abr. 2012)


Juva Batella

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

sábado, 26 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Subirosdoistiozin

Aqui. Som bom.

E subiram. Pro céu.
E eram dois.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

... os tais passeios pelos Bosques da Ficção...

Olha a Capuchinho, muito séria.
Lobos são bem vindos.
É dar as mãos e seguir.